segunda-feira, 5 de outubro de 2009

1ª Mostra de Cinema Comentado - "Ver com olhos livres"



ASSUNTO: COMENTÁRIOS SOBRE O FILME - QUANTO VALE, OU É POR QUILO?
Dirigido por SÉRGIO BIANCH

Sábado, dia 12 setembro de 2009, tivemos a oportunidade fazer parte da 1ª mostra de cinema comentado da faculdade Pitágoras, campus Rio de Janeiro e, o filme por nós escolhido foi “quanto vale ou é por quilo?”.

O filme é uma livre adaptação do conto de Machado de Assis, Pai Contra Mãe e é composto de flashes fazendo um paralelo, entre a sociedade escravista e a sociedade contemporânea.

No debate, foi aberta uma discussão a respeito de Machado de Assis, algumas de suas obras nas quais podemos notar uma tendência a fazer referências a situações muito semelhantes às de hoje, e o filme assistido. Por uma das professoras até foi citada uma frase que diz: “Não sabemos se Machado de Assis era um visionário, se nossa sociedade não mudou nada até hoje, ou as duas coisas”. Pudemos notar as diversas intertextualidades existentes entre o filme e algumas obras de Machado. A coisificação do ser humano, por exemplo, é um fator presente no conto Pai Contra Mãe o que no filme dirigido por Sérgio Bianchi, foi a questão mais explorada.
Na sociedade escravocrata, pessoas eram vendidas, compradas ou alugadas como bens semoventes. Mesmo entre pessoas supostamente amigas havia a muralha da indiferença e discriminação por causa da cor de pele e dos lucros do comércio de seres humanos. Escravos alforriados, ironicamente, tornavam-se senhores de escravos em nome de um status social. Digo ironicamente porque, uma vez que uma pessoa viveu os horrores da escravidão, do tronco, da senzala, como pode fazer outras pessoas seus escravos? Como pode uma pessoa que, literalmente, sentiu na pele a dor da chibata, submeter outras pessoas à mesma situação. Como no livro “Memórias póstumas de Brás Cubas”, onde o autor narra o fato de um ex-escravo de seu pai, de nome Prudêncio, estar espancando outro homem negro o qual era seu escravo. Pudemos notar um diálogo entre o filme e a obra de Machado de Assis, quando mostra uma escrava livre que luta por reaver um de seus escravos que havia sido roubado por um senhor branco. Pudemos também inferir que há diálogo do filme com o conto Pai Contra Mãe entre as partes em que um Capitão do Mato captura uma escrava fugida (Arminda), que se encontra grávida, leva-a ao seu dono e, sem se importar com o fato da escrava estar abortando a criança, recebe sua recompensa. No filme, um matador de aluguel, Candinho, é contratado para matar Arminda que descobre que os computadores doados ao projeto ao qual está empenhada foram superfaturados. Em ambos os casos, tudo acontece por causa do desespero em que se encontrava o capitão do mato e o matador de aluguel para conseguir dinheiro para sustentar sua família. É triste também comprovar que no filme há uma verdadeira crítica à sociedade atual. Em comparação com a sociedade do século XVIII, temos apenas uma diferença de forma de se lucrar. No passado, lucrava-se com a desgraça alheia. Lucrava-se com a venda, compra e aluguel de pessoas como se fossem coisas. No presente, existe o lucro, da mesma forma, sobre as desventuras do semelhante que, excluído socialmente, acaba “caindo nas garras” de pessoas ávidas por dinheiro e status. Pessoas que fazem marketing pessoal, com base na exploração do ser humano, com uma falsa solidariedade. ONG’s que existem, tão somente, para promover, através da miséria das pessoas, o lucro de empresas e organizações. Ações sociais que mais parecem existir para cegar as pessoas e convencê-las de que devem sempre viver daquela forma. E assim, empresas e pessoas tornam-se cada vez mais ricas, enquanto que os excluídos sociais permanecem na mesma vida de desventuras.

Com tudo o que pudemos inferir a respeito do filme e de algumas obras de Machado de Assis, em especial, Pai Contra Mãe, tivemos um maravilhoso debate, apesar de muito curto, com a presença de pessoas preparadíssimas para nos conceder outra visão com relação ao filme. Infelizmente muitos não deram a devida atenção e importância ao evento, mas, os que foram, tiveram a grande oportunidade de conhecer uma obra maravilhosa e tirar dela a sua essência e aguçar ainda mais seu senso crítico através do debate.

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